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quinta-feira, 7 de março de 2013

A Língua Karajá – Diferentes falares



O povo Iny, ou simplesmente Iny Mahãdu, é mundialmente reconhecido como Karajá, nome que há muito tempo foi usado por outros índios para se referirem aos Iny e acabou sendo mais divulgado.  Os Karajá, Javaé (Ixãju mahãdu) e Xambioá (Ixã biòwa) formam a “nação” Iny, e, apesar de algumas pequenas diferenças, compartilham da mesma matriz cultural e linguistica. 

Acervo PRODOCLIN|Karajá: momento do ritual de iniciação dos meninos

Segundo censo da FUNASA de 2010, a população atual é de aproximadamente 3200 pessoas distribuídas em cerca de 20 aldeias. Praticamente todos os Iny falam a língua Karajá que é, geralmente, a primeira língua adquirida pelas crianças em quase todas as comunidades da etnia. O Karajá e suas variantes dialetais, ou Inyrybè (fala dos Iny),  foram classificados como pertencentes ao tronco linguístico Macro-Jê, família Karajá.

No Inyrybè, existem algumas palavras que apresentam diferenças fonéticas entre a fala do homem e a da mulher. Essa diferença faz parte da cultura sendo obrigatório o uso da fala feminina pela mulher e da masculina pelo homem. Só quando vão reportar a fala de outra pessoa que utilizam o modo de falar do outro gênero. As vezes, também falam com os filhos conforme a fala de cada sexo para que as crianças possam aprender direitinho e não se confundir. Há diferentes processos fonológicos que marcam a diferença entre as falas do homem e da mulher que foram observados pela linguista Mônica Borges (1997) e podem ser averiguados em sua dissertação. O processo mais recorrente é a inserção do fonema /k/ em algumas palavras na fala feminina, como podemos observar nos exemplos abaixo:


Fala do Homem
Fala da Mulher
Português
iura
Iura by Doclin Iny
ikura
Ikura by Doclin Iny
branco
anahak
Anahaka by Doclin Iny
knahakỹ
Knahaky by Doclin Iny
crumatá
axiò
Axiò by Doclin Iny
axikò
Axikò by Doclin Iny
antebraço

O Inyrybè é uma língua tão bonita e possui tantas propriedades peculiares que vários pesquisadores vão às aldeias Iny para tentar compreendê-la melhor. Os linguistas que inicialmente se propuseram estudar esta língua  foram David e Gretchen Fortune nos anos 50. Desde então, vários pesquisadores da área foram atraídos por suas particularidades e desenvolvem trabalhos para tentar descrever melhor seus fenômenos linguísticos. Além dos pesquisadores tori (não indígenas), há também os professores e pesquisadores Iny que desenvolvem estudos e análises pertinentes que, inclusive, são repassados nas escolas das aldeias. Mesmo assim, ainda são poucos os trabalhos sobre o Karajá. É necessário mais gente disposta a estudar as linguas indígenas brasileiras, todas carentes de documentação e análise. 

Acervo PRODOCLIN|Karajá: Casa tradicional Iny

É cada vez maior a conscientização da necessidade de preservação das línguas e culturas indígenas  como forma de manter, resgatar e salvaguadar a identidade destes povos.  Por isso, o  Museu do Índio, órgão da FUNAI, em parceria com a UNESCO e o Banco do Brasil vem desenvolvendo desde 2009 o Projeto de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas Brasileiras (PRODOCLIN) que contempla cerca de doze etnias de diferentes regiões do Brasil. Os Iny estão entre os povos inicialmente selecionados e possuem uma equipe que desenvolve diferentes trabalhos de documentação sobre a lingua e cultura Karajá (PRODOCLIN|Karajá).